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ESPAÇO POÉTICO

por Viviana Borchardt
viviboiat@uol.com.br

 

Momento Carlos Drummond de Andrade

 

O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade foi considerado, por muitas décadas, o poeta mais influente da literatura brasileira em seu tempo, tendo publicado também diversos livros em prosa. Drummond nasceu em Itabira do Mato Dentro (MG), em 31 de outubro de 1902. Ele integrava uma família de fazendeiros em decadência, estudou na cidade de Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo (RJ), de onde foi expulso por "insubordinação mental". Quando voltou para Belo Horizonte (MG), iniciou a carreira de escritor como colaborador do Diário de Minas, que unia os adeptos locais do principiante movimento modernista mineiro. Devido sua família insistir para que obtivesse um diploma, formou-se em farmácia na cidade de Ouro Preto (MG) no ano de 1925. O poeta fundou, com outros escritores, “A Revista que, apesar da vida breve, foi um importante veículo de afirmação do modernismo em Minas. (O modernismo é uma corrente artística que surgiu na última década do século XIX, como resposta às conseqüências da industrialização, revalorizando a arte e sua forma de realização: manual). Mas, o modernismo não chega a ser dominante nos primeiros livros de Drummond, como: “Alguma poesia(1930) e “Brejo das almas” (1934), em que o poema-piada e a descontração sintática pareceriam revelar o contrário. O que predomina é a individualidade do autor, poeta da ordem e da consolidação, ainda que sempre contraditórias. Várias obras do poeta foram traduzidas para o espanhol, inglês, francês, italiano, alemão, sueco, tcheco e ainda outras línguas. Carlos Drummond de Andrade faleceu no Rio de Janeiro (RJ), dia 17 de agosto de 1987, poucos dias após a morte de sua filha única, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade.

 

Poema de Sete Faces

Livro: Alguma poesia

 

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

 As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo, vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

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