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ESPAÇO POÉTICO

por Viviana Borchardt
viviboiat@uol.com.br

 

Momento Cruz e Sousa

João da Cruz e Sousa nasceu em 1861, em Desterro, onde é atualmente Florianópolis. Filho de escravos alforriados pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa, foi acolhido pelo Marechal e sua esposa como o filho que não tinham. O poeta foi educado na melhor escola secundária da região, mas com a morte dos protetores foi obrigado a largar os estudos e trabalhar. Cruz e Sousa sofreu uma série de perseguições raciais, assim como a proibição de assumir o cargo de promotor público em Laguna, por ser negro. Em 1890 foi para o Rio de Janeiro, onde entrou em contato com a poesia simbolista francesa e seus admiradores cariocas. Colaborou em alguns jornais e, mesmo já bastante conhecido após a publicação de Missal e Broquéis (1893), só consegue arrumar um emprego na Estrada de Ferro Central. O poeta casou-se com Gavita, também negra, com quem teve quatro filhos, dois dos quais vieram a falecer. Sua mulher passou vários períodos em hospitais psiquiátricos. Jovem ainda, aos 36 anos de idade, Cruz e Sousa morreu vítima de tuberculose, da pobreza e, principalmente, do racismo e da incompreensão. Teve uma vida sofrida mas, deixa para todas as gerações suas poesias, em especial, seus sonetos que servem de inspiração para quem gosta de ler e escrever poesia.

 

A harpa
Últimos Sonetos

 

Prende, arrebata, enleva, atrai, consola
A harpa tangida por convulsos dedos,
Vivem nela mistérios e segredos,
É berceuse, é balada, é barcarola.

Harmonia nervosa que desola,
Vento noturno dentre os arvoredos
A erguer fantasmas e secretos medos,
Nas suas cordas um soluço rola…

Tu'alma é como esta harpa peregrina
Que tem sabor de música divina
E só pelos eleitos é tangida.

Harpa dos céus que pelos céus murmura
E que enche os céus da música mais pura,
como de uma saudade indefinida.

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