Educação para o futuro – por Juliano Bona (O que sempre fomos!)

Educação para o futuro – por Juliano Bona (O que sempre fomos!)

24 de fevereiro de 2021 Off Por Redação

 

 

O que sempre fomos!

 

               Voltamos! Mesmo sem gosto, hoje vou escrever em primeira pessoa. Nos primeiros dias em que me deparei com a escola, seus espaços internos, um pequeno pensamento me tomou. A cada novo dia destas primeiras semanas de aula, em vários momentos ele me habitava, nos intervalos, no olhar distante, ao escutar os barulho de meus pés nos corredores em direção às salas. Sempre o mesmo pensamento, a mesma sensação de que alguma coisa se perdeu. O desconforto aumentou, minhas leituras eram interrompidas a todo momento e o mesmo pensamento à espreita. Depois de muito observar, num movimento contínuo de sistematização do pensamento, uma pergunta despertou a consciência e me trouxe alento: o que sempre fomos? Claro que a resposta é subjetiva, e aqui se revela o motivo da escrita ser em primeira pessoa. Mesmo com a pretensa singularidade da resposta, muitos podem se identificar e compartilhar as sensações dos primeiros dias nos espaços educacionais.

               O que sempre fomos? Não imposta sua posição na educação, sua função, de alguma forma nos envolvemos com os alunos, nos aproximamos deles. Conhecimento, discussões, palavras trocadas, erros, correções, filmes, documentários, fechar os olhos, rir, e muitas vezes chorar, mesmo que sozinho. O fato é que, como professor, professora, compartilhamos a vida com nossos alunos e alunas. A aproximação funciona como motor das relações de aprendizagem, construção cultural, os afetos que se efetivam via discurso científico, ou sobre as conversas dos feitos do fim de semana. O contato, o olhar próximo, o andar entre as carteiras, as orientações distantes do quadro branco, um toque sobre o ombro, um incentivo para continuar. O que sempre fui? O que sempre fomos? Arrisco dizer que somos pontes, pequenas pontes entre nossos alunos, entre os diferentes conhecimentos que pertencem às nossas disciplinas e também àqueles que lhes ultrapassam.

               Ao narrar o que sempre fomos, o que sempre fui, tomo consciência do desconforto dos primeiros dias, e passo a pensar no que somos, o que nos tornamos em tempos de pandemia. As circulação entre os alunos, a aproximação quase imediata, as interações que exigem afetos mais próximo foram interrompidos em virtude dos protocolos de segurança. As distâncias precisam ser mantidas em um esforço contínuo de tomada de consciência, são os sentidos do que sempre fomos nos empurrando para onde a educação acontece em sua maior potência, na interação estreita que firmamos com nossos alunos. Talvez, nesse momento, o que somos seja guiado pela falta do que sempre fomos.

               O desconforto começa a diminuir, o distanciamento começa a ser normatizado. Outro problema, este deixo para discutirmos em outro momento. Até tudo isso passar, permaneço como agente que vigia os distanciamentos. Porém, e a todo momento, desejo o mais rápido possível voltar a ser o que sempre fui, ou para quem se identificar: voltar a ser pequenas pontes, o que sempre fomos!

 


Juliano Bona – Doutor em Educação pela Universidade do Vale do Itajaí – Univali (2020). Atua como professor de matemática na Rede Pública Municipal de Timbó/SC. Tem experiência no Ensino Superior nas seguintes áreas: Educação, Educação Matemática, Cálculo Diferencial e Integral, Geometria e Álgebra Linear. Desenvolve pesquisa na área da Educação, Educação Matemática, Processo de Internacionalização do Currículo (IoC), Estudos Interculturais, Intermatemática e Filosofia da Diferença.