Autismo: Médica explica a importância do diagnóstico em adultos

Autismo: Médica explica a importância do diagnóstico em adultos

Março 31, 2026 0 Por Redação

 

 

No mês de conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) médicos alertam sobre a importância de reduzir o preconceito, promover a inclusão e educar a sociedade sobre o TEA

 

DATA: Abril, 2026 – O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento, ou seja, da forma como o cérebro se desenvolve ao longo do tempo. Tanto crianças quanto adultos e idosos podem ter o transtorno, com dificuldades semelhantes, mas com apresentações diferentes. Em 2025, o IBGE divulgou os primeiros dados oficiais do Censo 2022, indicando que 2,4 milhões de brasileiros (1,2% da população acima de 2 anos) têm diagnóstico de TEA. O foco atual também está no diagnóstico tardio, com a Lei nº 15.256/2025 incentivando a avaliação de adultos e idosos.

A médica neurologista, Gabriela Baron, explica que segundo os critérios do Manual de Transtornos Mentais – DSM, na criança, é avaliado o cérebro em desenvolvimento. “Existe uma dificuldade na comunicação e na interação social, o que aparece como atrasos na linguagem, ou seja, a criança não fala no tempo correto, ou tem dificuldade de interagir com outras crianças ou com os adultos. Há ainda dificuldade no contato visual, padrões restritos e repetitivos de comportamento como: alinhar brinquedos; ou movimentar as mãos sempre da mesma forma, a chamada estereotipia; muita dificuldade com mudanças; irritabilidade; seletividade alimentar e sensibilidade excessiva a sons, luzes ou texturas de roupas”, detalha. Ainda segundo ela, “o grau é dividido em níveis de suporte, dependendo de quanta ajuda o paciente precisa de outras pessoas, variando o nível de 1 a 3 de suporte. O grau acontece da mesma forma para crianças e para adultos, mas variam as tarefas para as quais eles vão precisar de ajuda, sendo a criança no contexto escolar ou familiar, já os adultos nos contextos relacionados a trabalho, relacionamentos e família”, reforça a médica, membro da Associação Brusquense de Medicina – ABM.

Médica neurologista, Gabriela Baron

Quando falamos de autismo em adultos, a neurologista lembra que neste estágio, normalmente, já aconteceram adaptações, o que pode dificultar o diagnóstico. “Mesmo com as dificuldades de comunicação, interação e comportamento, a pessoa aprende por observação dos outros e faz o que é socialmente aceito. Chamamos isso de ‘mascaramento’, como se fosse uma máscara. Por mais que a pessoa faça isso de forma automática, pode ser uma fonte de sofrimento, porque o comportamento não é natural, é como se todos os dias ele precisasse ensaiar ou se preparar para as interações”, frisa.

Ainda de acordo com a médica, “os adultos têm dificuldades em relacionamentos, pois não conseguem manter a longo prazo, ou no trabalho, tem dificuldades de interação com colegas ou tem comportamentos muito rígidos; são muito literais, não entendem ironia ou não captam os sinais de expressão da outra pessoa; não entendem as regras sociais e precisam ter previsibilidade. Nestes casos, as mudanças podem gerar muito sofrimento, e os interesses são específicos e muito intensos como, por exemplo, alguém que ama dinossauros e estuda tudo sobre isso. Podem ter também, a chamada sobrecarga sensorial: estímulos sonoros, luminosos ou ambientes que têm muito estímulo ao mesmo tempo podem deixar a pessoa cansada, esgotada. E é importante entender que essas características estão presentes desde o início do desenvolvimento lá na infância, por ser uma alteração no desenvolvimento cerebral, mas pode não ter sido percebido durante esse período”, detalha.

DIAGNÓSTICO
Conforme a neurologista Gabriela Baron, o diagnóstico é feito pela história do paciente e pelos sintomas observados na consulta; em entrevista com ele mesmo ou com a família, o que pode ajudar nos dados da infância e também na percepção do comportamento; pela avaliação dos critérios diagnósticos; através do DSM e avaliar possíveis fatores de confusão, como por exemplo, o transtorno de ansiedade ou outros transtornos psiquiátricos que podem ter características parecidas. Em alguns casos, quando existem dúvidas, a avaliação neuropsicológica pode ajudar também, pois são aplicados testes objetivos para quantificar a dificuldade ou prejuízo do paciente. A médica lembra ainda que, nem sempre o diagnóstico vem numa primeira consulta e, muitas vezes, o paciente precisa ser acompanhado ao longo do tempo.

Dentro desta avaliação, a neurologista explica que o autismo pode ter uma ligação genética. De acordo com a médica, “existe um componente genético forte, não é um gene específico, mas várias alterações que podem gerar o transtorno. Irmãos de pessoas que têm autismo têm 10% a 20% mais chances de ter o transtorno e, normalmente, os pais do paciente com autismo têm algum traço ou podem também ter o transtorno. Podem ter um sintoma específico sem fechar todo o diagnóstico, o que chamamos de fenótipo ampliado. Não é só genético, então existe uma influência do ambiente de forma importante, principalmente, quando existe histórico de prematuridade. Também a idade avançada dos pais, especialmente do pai, aumenta o risco do transtorno”.

TRATAMENTO
A médica ressalta que o Autismo tem tratamento e ele é sempre voltado para diminuir as dificuldades que o transtorno traz para a convivência e o sofrimento que causa para o paciente, destacando a importância da psicoterapia, voltada para o autoconhecimento. “De maneira geral, não existe um remédio específico para o autismo, porque é uma forma de funcionamento do cérebro, mas existem medicamentos que ajudam a tratar alguns comportamentos que não são funcionais como, por exemplo, um paciente que tem muita irritabilidade, estereotipias ou mesmo situações de saúde mental que surgem ao longo da vida, como ansiedade e depressão. Já para evitar o autismo, a gente teria que prevenir, por exemplo, a prematuridade, fazendo um bom acompanhamento pré-natal. Uma vez estabelecido, por ser uma forma de desenvolvimento do cérebro, não há como evitar, mas pode-se tratar de forma precoce, pois quanto antes o médico intervir, melhor vai ser para o paciente, porque conseguimos diminuir alguns comportamentos que podem prejudicar o paciente no futuro. Também é importante frisar que a família e os amigos podem ajudar o paciente a se perceber”, reforça a neurologista. “Muitas vezes os adultos têm comportamentos tão automáticos que eles não se percebem, assim a família pode alertar quando perceber algo que pode estar prejudicando, evitando apontar como errado, sempre falando de uma forma amigável, para que eles saibam que existem formas de tratar e de minimizar esse desconforto.  As pessoas precisam entender também que a forma de funcionamento do paciente é diferente e, por isso, precisa ter muito respeito, paciência e compreensão acima de tudo”, completa a médica.

Mìdia Press Assessoria