Educação para o futuro – por Juliano Bona (A continuidade do descontínuo)

Educação para o futuro – por Juliano Bona (A continuidade do descontínuo)

29 de abril de 2021 Off Por Redação

 

 

Existe uma certa linha de continuidade que atravessa os processos de ensino/aprendizagem em diferentes níveis. Com prudência, é possível observá-los nos espaços educacionais. Como todos sabemos, e às vezes procuramos deixar esta constatação em segundo plano para não cairmos em uma espécie de niilismo pedagógico, vivemos uma grande crise educacional. Não sabemos, e talvez nunca saberemos, as marcas pandêmicas que o nosso contexto educacional deixará nas memórias, na maneira de pensar de nossas crianças e adolescentes. Os impactos são diários; conseguimos, nesse momento, observar apenas os efeitos imediatos, os microefeitos, na forma do não cumprimento de algumas atividades, entregas atrasadas, a baixa motivação para recomeçar. Sabemos, e não devemos ser ingênuos nesse momento, que as consequências são profundas e aparecerão no futuro.

               2020 foi, com certeza o ano mais difícil que já enfrentei como professor, a sensação de impotência ainda me invade em alguns momentos. Em 2021, os desafios continuam enormes. As telas do trabalho remoto diminuíram em virtude do ensino híbrido, porém, outros desafios surgiram. Talvez não seja o maior, se analisarmos estes aspectos em profundidade, porém, acredito ser consenso entre os professores as descontinuidades que a pandemia nos impõe neste momento. Claro que existem diferentes realidades educacionais, mas de alguma forma o ensino híbrido provoca o surgimento de algumas descontinuidades que ainda não conseguimos superar. Aulas on-line, ambiente virtual, ensino presencial que respeite os protocolos de distanciamento, casa, escola, celular, WhatsApp. Habitar estes diferente espaços provocam um lapso de descontinuidade que não pertencem aos processos educacionais que alicerçavam a educação em tempos pré-pandêmicos. Você que lê este texto, educador, educadora, pai, mãe, aluno, aluna, feche os olhos e lembre da escola que tínhamos: sua organização era pautada sobre linhas de continuidade que mantinham relativamente estáveis os movimentos educacionais.

               Como pesquisador/professor, arriscaria começar a edificação do conceitos de ensino híbridos da seguinte forma: estamos diante de um processo de ensino/aprendizagem que materializa de forma prática a continuidade do descontínuo. Acredito ser por isso que os sentimentos que nós, professores, temos nesse momento com relação a um constante reinício se deve à nossa necessidade de costurarmos as descontinuidades que estão no centro do que nesse momento chamamos de ensino híbrido. Toda semana, a cada novo espaço, on-line, presenciamos um novo recomeço. Recomeços provocam desgastes, energia potencial que todo início exige.

A esta altura, podemos nos fazer duas perguntas: a continuidade no fazer pedagógico é necessária para que o ensino/aprendizagem aconteça? Como podemos pensar em um novo modelo educacional que se torne produtivo diante das descontinuidades? Duas perguntas, dois caminhos. Um voltado para o passado em um sonho quase nostálgico de procura de uma escola baseada nas continuidades pertencentes a um único espaço, a sala de aula. O outro, voltada na edificação de estratégias pedagógicas, de gestão, que permitam criar pilares que sustentem uma outra escola, esta que estamos vivendo, e que se estenderá para o futuro, baseada nas descontinuidades e nos múltiplos espaços de aprendizagem. A energia é o que temos, fonte finita; em última análise, temos uma escolha: ou nos preparamos para o futuro, ou viveremos em uma eterna perseguição de uma escola que não existe mais.

 

 

Juliano Bona – Doutor em Educação pela Universidade do Vale do Itajaí – Univali (2020). Atua como professor de matemática na Rede Pública Municipal de Timbó/SC. Tem experiência no Ensino Superior nas seguintes áreas: Educação, Educação Matemática, Cálculo Diferencial e Integral, Geometria e Álgebra Linear. Desenvolve pesquisa na área da Educação, Educação Matemática, Processo de Internacionalização do Currículo (IoC), Estudos Interculturais, Intermatemática e Filosofia da Diferença.