
Educar para o Respeito: Por que as Escolas Precisam das Disciplinas de Empatia e Cidadania Digital
Janeiro 15, 2026
Por Rodrigo Alessandro Ferreira, Policial Civil e fundador do @rafcyber
Em um cenário de crescente violência entre estudantes e de episódios cada vez mais frequentes de agressões contra professores, é urgente repensar o papel da escola na formação de cidadãos conscientes e responsáveis, tanto no mundo físico quanto no digital. O bullying e o cyberbullying deixaram de ser fenômenos isolados e passaram a refletir uma falha estrutural: estamos formando jovens tecnicamente conectados, mas emocionalmente despreparados para a convivência.
Nesse sentido, falar em prevenção hoje significa falar, necessariamente, em empatia e cidadania digital. Não como conceitos abstratos, mas como competências educáveis. Evidências amplamente consolidadas na literatura educacional e psicológica indicam que a empatia não é um traço fixo de personalidade; ela pode e deve ser ensinada, desenvolvida e fortalecida ao longo da trajetória escolar. Ignorar esse aspecto é insistir em um modelo educacional que transmite conteúdos, mas negligencia relações.
A experiência recente no Brasil aponta um caminho possível. A parceria entre o Ministério Público da Bahia, a SaferNet Brasil e o Governo do Reino Unido levou a disciplina de Cidadania Digital a centenas de escolas, alcançando mais de 100 mil estudantes. Os resultados positivos, destacados em reportagens do Jornal Nacional e do Fantástico, evidenciam algo fundamental: quando os jovens compreendem os impactos reais de suas ações digitais, o comportamento muda e, inegavelmente, o ambiente escolar melhora. O conflito diminui.
A proposta vai além de ensinar regras de uso da internet, tradicionalmente abordadas nas aulas de informática. Trata-se de preparar os estudantes para compreender as consequências de suas escolhas no ambiente digital, seja ao compartilhar uma imagem, emitir uma opinião ou reagir a um comentário. Muitos adolescentes ainda acreditam que a internet é um espaço de anonimato e impunidade, algo que já destaquei em artigo anterior não corresponder à realidade. Cada ato deixa rastros, e cada palavra tem impacto concreto na vida de alguém.
Mas a cidadania digital, isoladamente, não resolve o problema. O ambiente virtual tende a enfraquecer a empatia ao eliminar a reação imediata da vítima, o que torna esse processo especialmente cruel. A tela cria distância emocional. Sem educação específica, o outro deixa de ser percebido como pessoa e passa a ser tratado como perfil, imagem ou alvo. Estudos recentes apontam que a redução das interações presenciais e a hiperconectividade na infância e adolescência comprometem o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, favorecendo respostas impulsivas, desumanizadas e agressivas, especialmente no ambiente escolar (HAIDT, 2024; DESMURGET, 2024). É nesse contexto que se multiplicam o cyberbullying, a extorsão, a exposição pública, o estupro virtual, a automutilação e até a instigação ao suicídio.
Por isso, a empatia precisa ocupar o mesmo espaço curricular da cidadania digital. Ensinar empatia é ensinar humanidade. É desenvolver a capacidade de reconhecer limites, compreender o sofrimento alheio e assumir responsabilidade pelas próprias ações, especialmente quando o agressor consegue se colocar sob a ótica da vítima. A erosão da empatia está diretamente associada à banalização da violência e ao enfraquecimento dos vínculos sociais. E este fenômeno que hoje se manifesta de forma preocupante dentro das escolas.
Essa ausência de empatia também se reflete na relação entre estudantes e professores. Casos de desrespeito, ameaças e agressões em sala de aula revelam uma ruptura grave na convivência escolar, realidade que diariamente se impõe por meio de relatos nas redes sociais e na imprensa. Onde não há empatia, não há limite. Onde não há limite, o conflito se intensifica. A escola, nesse cenário, passa a conviver com tensões que comprometem o processo educativo e a segurança de todos.
É justamente por isso que a disciplina de empatia precisa deixar de ser opcional e passar a ser compreendida como uma necessidade educacional. Em muitos contextos familiares, por diferentes razões, esses valores não têm sido trabalhados de forma consistente; a empatia deixou de ser, em muitos lares, um verdadeiro “dever de casa”. A escola, então, assume um papel ainda mais relevante: o de formar sujeitos capazes de conviver, dialogar, respeitar e, sobretudo, compreender as diferenças.
As instituições que adotaram práticas estruturadas de educação socioemocional relatam redução de conflitos, melhora no clima escolar e maior engajamento dos estudantes. Os alunos passam a refletir antes de postar, antes de comentar, antes de humilhar. Essa mudança cultural é lenta, mas profunda e, sobretudo, essencialmente preventiva.
Enquanto Policial Civil, tenho acompanhado de perto, tanto nas palestras ministradas quanto nos atendimentos e questionamentos individuais, como a ausência de consciência digital e empática está na raiz de muitos crimes praticados por adolescentes. Em grande parte dos casos, o padrão se repete: falta de empatia, falsa sensação de anonimato e desconhecimento das consequências. Quando a escola atua antes, a repressão deixa de ser a única resposta.
Diante de tudo isso, é preciso reconhecer que a ausência de empatia não se limita ao ambiente escolar ou às interações digitais. Ela se projeta para a vida adulta e se manifesta em relações marcadas por controle, humilhação e violência doméstica. Quando o outro deixa de ser reconhecido como sujeito de direitos, a agressão se naturaliza. Nesse contexto, torna-se inadiável enfrentar outro eixo estruturante da prevenção: a educação sexual. Falar de empatia, cidadania digital e cyberbullying sem abordar temas como consentimento, limites, respeito ao corpo e responsabilidade afetiva é manter lacunas que alimentam violências futuras. O compartilhamento não consensual de imagens íntimas, o estupro virtual, a exploração sexual e diversas formas de abuso têm origem comum na desinformação e na incapacidade de reconhecer o outro como pessoa. Educar para o respeito, portanto, exige integrar empatia, cidadania digital e educação sexual de forma responsável, clara e preventiva, preparando crianças e adolescentes para relações saudáveis, éticas e seguras, seja dentro e fora das telas.
Referências bibliográficas
DESMURGET, Michel. A fábrica de cretinos digitais: os perigos das telas para nossas crianças. Rio de Janeiro: Vestígio, 2024.
HAIDT, Jonathan. A geração ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DA BAHIA. MPBA implanta “Cidadania Digital” em 12 municípios para uso seguro de tecnologias em ambiente escolar. Salvador, 12 dez. 2024. Disponível em: https://www.mpba.mp.br/noticia/75625. Acesso em: 29 dez. 2025.
SAFERNET BRASIL. Disciplina de Cidadania Digital é destaque no Jornal Nacional e no Fantástico. SaferNet Brasil, 2024. Disponível em: https://new.safernet.org.br/content/disciplina-de-cidadania-digital-e-destaque-no-jornal-nacional-e-no-fantastico. Acesso em: 02 jan. 2026.
Policial em Santa Catarina
linktr.ee/rafcyber

















