O Caso do Cão Orelha e a Normalização da Violência como Linguagem Digital

O Caso do Cão Orelha e a Normalização da Violência como Linguagem Digital

Janeiro 29, 2026 0 Por Redação

 

 

 

Por Rodrigo Alessandro Ferreira, Policial Civil e fundador do @rafcyber

A morte do cão comunitário conhecido como Orelha, em Florianópolis, não pode ser compreendida como um episódio isolado ou como um desvio pontual de conduta juvenil. Trata-se de um fenômeno inserido em um contexto mais amplo de normalização da violência no ambiente digital, marcado pela dessensibilização moral progressiva, pela gamificação da crueldade e pela instrumentalização da agressividade como forma de pertencimento social.

Investigação jornalística do Estadão revelou que grupos de ódio na internet vêm incitando adolescentes à tortura de animais, operando em redes digitais fragmentadas, altamente adaptáveis e voltadas à exploração de vulnerabilidades juvenis (ESTADÃO, 2025a). O procurador de Justiça Fábio Costa Pereira, coordenador do Projeto Sinais do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), classificou o caso como “a ponta do iceberg”, alertando para a existência de comunidades digitais estruturadas que transformam a violência em linguagem socialmente validada (ESTADÃO, 2025b).

Essas dinâmicas não surgem de forma espontânea. Elas se desenvolvem em ecossistemas digitais nos quais a exposição reiterada à violência reduz, de maneira gradual, as barreiras emocionais e éticas. A literatura clássica da psicologia social já demonstrava que comportamentos agressivos podem ser aprendidos por observação e reforçados quando associados a recompensas simbólicas e reconhecimento grupal (BANDURA, 1977). No ambiente digital contemporâneo, esses mecanismos são potencializados pelo anonimato, pela ausência de responsabilização imediata e por métricas algorítmicas que recompensam engajamento, mesmo quando este se ancora na crueldade.

Pesquisas recentes aprofundam esse diagnóstico. Jonathan Haidt demonstra que a infância e a adolescência hiperconectadas, especialmente em ambientes digitais desregulados, estão associadas à erosão da empatia, ao aumento da impulsividade e à fragmentação da atenção moral, sobretudo em fases críticas do desenvolvimento neurológico (HAIDT, 2024). Michel Desmurget, por sua vez, evidencia que o consumo excessivo de telas e conteúdos digitais impacta negativamente o desenvolvimento cognitivo, emocional e ético de crianças e adolescentes, favorecendo processos de dessensibilização, banalização da violência e empobrecimento da capacidade reflexiva (DESMURGET, 2021).

É nesse contexto que se insere a atuação de redes digitais estruturadas em torno da crueldade, como a COM/764, cuja dinâmica já foi objeto de análises anteriores e apresenta características recorrentes: fragmentação organizacional, migração constante entre plataformas, uso de ambientes frequentados por jovens e estímulo progressivo à transgressão como prova de pertencimento. Nessas redes, a violência deixa de ser percebida como ruptura moral e passa a funcionar como linguagem grupal.

A pesquisadora Michele Prado, referência nacional nos estudos sobre radicalização juvenil e violência extrema, tem alertado que esses ambientes operam sob lógica de dessensibilização progressiva, na qual a repetição de atos cruéis reduz o impacto emocional e enfraquece mecanismos empáticos, especialmente em adolescentes em processo de formação identitária. Essa leitura encontra respaldo tanto na literatura científica quanto no jornalismo investigativo.

No campo da análise investigativa independente, o portal Direto aos Fatos descreve a COM/764 como um ecossistema associado à promoção sistemática de crueldade e extremismo, com atuação em comunidades fechadas e plataformas de comunicação digital, explorando deliberadamente vulnerabilidades juvenis (DIRETO AOS FATOS, 2025). Embora não se trate de fonte acadêmica revisada por pares, o conteúdo possui relevância enquanto registro analítico complementar, especialmente por convergir com investigações jornalísticas de grande circulação e com achados científicos consolidados.

Plataformas como Roblox, estruturado como ambiente de metaverso, Discord, por meio de servidores privados e comunidades fechadas, e Telegram, via grupos de comunicação criptografada, embora não sejam concebidas originalmente como espaços violentos, têm sido utilizadas como zonas de transição para processos de recrutamento juvenil. Nesses ambientes, crianças e adolescentes são progressivamente expostos a interações ambíguas, desafios simbólicos e convites para grupos restritos, nos quais a escalada da violência ocorre de forma gradual, difusa e, em grande medida, invisível aos responsáveis legais. A violência contra animais, incluindo práticas de zoosadismo, não constitui, nesse contexto, um ponto inicial, mas um marco intermediário em trajetórias de dessensibilização moral, frequentemente associado à normalização da crueldade como forma de pertencimento e validação grupal.

Essa leitura dialoga diretamente com reflexões já desenvolvidas no artigo Educar para o respeito: por que as escolas precisam das disciplinas de empatia e cidadania digital, no qual sustento que a empatia não é um atributo plenamente inato, mas uma competência social que precisa ser ensinada, exercitada e protegida (FERREIRA, 2026). O caso do cão Orelha evidencia um estágio posterior e mais grave desse mesmo processo: quando a ausência de empatia deixa de causar estranhamento e passa a ser socialmente validada.

Importa destacar que a formação empática não se limita ao espaço escolar. Ela se inicia, de forma decisiva, nos núcleos familiares, responsáveis pela mediação ética inicial entre crianças, tecnologia e mundo social. Famílias que terceirizam integralmente essa mediação ao ambiente digital acabam expondo crianças e adolescentes a contextos para os quais não possuem maturidade emocional ou cognitiva suficiente.

O enfrentamento desse fenômeno exige mais do que respostas penais reativas. Exige alfabetização digital crítica, formação ética contínua, monitoramento institucional, responsabilização das plataformas e, sobretudo, a reconstrução da empatia como valor social, sendo ensinada em casa, reforçada na escola e protegida pelo Estado. O caso do cão Orelha não é apenas um alerta isolado; é um diagnóstico social. E diagnósticos ignorados tendem a evoluir para quadros cada vez mais graves e irreversíveis.


Referências bibliográficas

BANDURA, Albert. Social learning theory. Englewood Cliffs: Prentice Hall, 1977.

DESMURGET, Michel. A fábrica de cretinos digitais: os perigos das telas para nossas crianças. Tradução de Mauro Pinheiro. São Paulo: Vestígio, 2021.

DIRETO AOS FATOS. Rede 764: crueldade e extremismo. 2025. Disponível em: https://diretoaosfatos.com/rede-764-crueldade-e-extremismo/. Acesso em: 27 jan. 2026.

ESTADÃO. Grupos de ódio na internet incitam adolescentes a torturar animais: cão Orelha é ponta do iceberg. São Paulo, 2025a. Disponível em: https://www.estadao.com.br/brasil/grupos-de-odio-na-internet-incitam-adolescentes-a-torturar-animais-cao-orelha-e-ponta-do-iceberg/. Acesso em: 29 jan. 2026.

ESTADÃO. Caso do cão Orelha: grupos de ódio na internet incitam adolescentes a torturar animais. São Paulo, 2025b. Disponível em: https://www.estadao.com.br/tv/educacao/caso-do-cao-orelha-grupos-de-odio-na-internet-incitam-adolescentes-a-torturar-animais/. Acesso em: 29 jan. 2026.
FERREIRA, Rodrigo Alessandro. Educar para o respeito: por que as escolas precisam das disciplinas de empatia e cidadania digital. Timbó Net, 2026. Disponível em:

HAIDT, Jonathan. A geração ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais. Tradução de Lígia Azevedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.

PRADO, Michele. Violência digital, radicalização juvenil e sinais de alerta em ambientes online. Postagens públicas na plataforma X (antigo Twitter), perfil @MichelePradoBa. Disponível em: https://x.com/MichelePradoBa. Acesso em: 29 jan. 2026.

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Rodrigo Alessandro Ferreira | Bullying e Cyberbullying
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