Seletividade alimentar afeta crianças com autismo e pode impactar desenvolvimento

Seletividade alimentar afeta crianças com autismo e pode impactar desenvolvimento

Abril 22, 2026 0 Por Redação

 

 

 

Comum no TEA, comportamento exige atenção e abordagem integrada para evitar deficiências nutricionais

A seletividade alimentar é uma das características mais comuns entre crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e também um dos maiores desafios enfrentados pelas famílias no dia a dia. Estudos indicam que entre 50% e 80% das crianças com autismo apresentam algum grau de seletividade alimentar, índice significativamente superior ao observado em crianças com desenvolvimento típico. Marcada pela recusa de alimentos, preferência por cores, texturas ou marcas específicas, essa limitação pode impactar diretamente o estado nutricional e o desenvolvimento infantil.

Dados mais recentes do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), divulgados em 2025, apontam que uma em cada 31 crianças está dentro do espectro, o que amplia a necessidade de informação e acompanhamento especializado. Embora não seja exclusiva do autismo, a seletividade tende a ser mais intensa nesses casos, muitas vezes associada a questões sensoriais e comportamentais — como hipersensibilidade a cheiros, sabores e consistências, rigidez de rotina e dificuldade com mudanças.

 

Muito além de “fase” ou “birra”

Segundo a nutricionista materno-infantil Caroline von Borowski, que atua com nutrição no autismo e TDAH, é fundamental compreender que esse comportamento não deve ser tratado de forma simplista.

“Quando a gente fala de seletividade no autismo, estamos olhando para uma combinação de fatores que envolvem sensibilidade sensorial, rotina e até questões clínicas. Não é simplesmente uma recusa alimentar”, explica.

A especialista, responsável pelo atendimento nutricional de crianças com autismo no Projeto TEA Tapera, que acompanha mais de 250 famílias atípicas em Florianópolis, destaca que a restrição alimentar pode levar a deficiências nutricionais importantes — especialmente de ferro, zinco, vitaminas do complexo B e fibras — afetando não só o crescimento, mas também o comportamento e a imunidade.

“Uma alimentação muito limitada pode impactar diretamente no humor, na atenção e até no sono da criança. Por isso, o olhar precisa ser ampliado”, afirma.

 

Impacto real na rotina das famílias

Na prática clínica, casos evidenciam esse impacto. Um deles é o de Diego de Lima Souza, de 7 anos, criança autista não verbal que apresentava seletividade alimentar severa, irritabilidade constante e alta sensibilidade a estímulos sonoros. Após avaliação, foram identificadas deficiências nutricionais e um marcador inflamatório elevado. Com ajustes na alimentação, suplementação e encaminhamento para investigação especializada, foi diagnosticada esofagite eosinofílica.

Com o tratamento adequado, Diego apresentou evolução importante: passou a se comunicar com palavras, apresentou melhora no comportamento e ampliou a aceitação alimentar, além de reduzir a sensibilidade a sons do dia a dia.

Para a mãe, Laise Neves de Lima, o processo trouxe mudanças significativas na rotina da família. “A gente vivia uma rotina muito difícil, sem entender o que estava por trás de tanta recusa e irritação. Quando começamos a investigar e ajustar a alimentação, tudo começou a mudar. Hoje ele aceita mais alimentos, está mais calmo e a nossa rotina ficou muito mais leve”, relata.

 

Cuidado integrado faz diferença

Nesse contexto, o acompanhamento interdisciplinar ganha protagonismo. A integração entre nutricionistas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e outros profissionais da saúde contribui para uma abordagem mais eficaz e segura.

“Quando os profissionais trabalham de forma alinhada, conseguimos resultados mais consistentes e uma condução mais tranquila para a família”, destaca Caroline.

Além do acompanhamento profissional, algumas estratégias são consideradas fundamentais no manejo da seletividade alimentar: a exposição gradual a novos alimentos, sem pressão; a construção de uma rotina alimentar previsível; o respeito às preferências sensoriais da criança; e a utilização de abordagens terapêuticas, como a terapia alimentar e a integração sensorial. Evitar forçar a ingestão e transformar o momento da refeição em uma experiência positiva também são pontos-chave para a evolução.

Mais do que ampliar o cardápio, o processo envolve respeito ao tempo da criança e estratégias individualizadas. A construção de uma relação mais positiva com os alimentos é gradual — e passa, sobretudo, pelo acolhimento das famílias.

Em um cenário de aumento dos diagnósticos, o tema ganha cada vez mais relevância, reforçando a importância de informações qualificadas e de redes de apoio que ajudem a transformar a rotina alimentar em uma experiência possível e menos desafiadora


Tatî Sìlva
Assessora de Imprensa