@explana: quando a humilhação vira entretenimento e a violência digital passa a ser normalizada

@explana: quando a humilhação vira entretenimento e a violência digital passa a ser normalizada

Maio 10, 2026 0 Por Redação

 

 

Por Rodrigo Alessandro Ferreira, Policial Civil e fundador do @rafcyber

Os perfis conhecidos como “@explana” vêm se consolidando como uma das manifestações mais agressivas e silenciosamente normalizadas do cyberbullying contemporâneo entre adolescentes. Embora frequentemente tratados como mera “fofoca escolar”, esses espaços digitais operam, na prática, como ambientes de exposição pública, humilhação coletiva, propagação de boatos e destruição reputacional, transformando a violência simbólica em entretenimento socialmente compartilhado.

A dinâmica é relativamente simples: perfis anônimos recebem mensagens, fotografias, acusações ou rumores envolvendo estudantes e publicam esse conteúdo para ampla circulação nas redes sociais, especialmente no Instagram. O problema, contudo, está longe de ser simples. Pesquisa publicada na Revista Campo Minado identificou que processos de “explanação” têm amplificado conflitos escolares, potencializando sofrimento emocional, acusações falsas, intimidações sistemáticas e agressões virtuais dentro e fora do ambiente escolar (PINTO; RODRIGUES; RIBEIRO, 2024) .

Mais do que episódios isolados, os “@explana” revelam uma mudança profunda na forma como parte da juventude contemporânea se relaciona com exposição, privacidade e violência. A internet deixa de funcionar apenas como espaço de sociabilidade e passa a atuar também como mecanismo permanente de vigilância, julgamento e validação pública. Nesse contexto, a humilhação se converte em moeda de engajamento.

Reportagem publicada pelo jornal Extra mostrou que perfis “explana” se espalharam entre adolescentes do Rio de Janeiro, reunindo centenas e até milhares de seguidores, frequentemente vinculados a escolas específicas. Em muitos casos, estudantes tiveram suas imagens associadas a falsas acusações, boatos sexuais, insultos e difamações, desencadeando crises emocionais severas, quadros depressivos e desejo de evasão escolar (SCHMIDT, 2022) .

Uma adolescente de 16 anos, vítima de um desses perfis, precisou de atendimento médico após publicações falsas envolvendo suposta traição e exposição íntima. Outro relato descreve estudantes marcados publicamente com ofensas relacionadas à aparência física, orientação sexual e comportamento social, em um verdadeiro processo de linchamento moral digital (SCHMIDT, 2022) .

O aspecto mais preocupante talvez não seja apenas a existência desses perfis, mas a naturalização social do fenômeno. A lógica do “é só brincadeira”, frequentemente utilizada para minimizar essas práticas, contribui para reduzir a percepção de gravidade da violência psicológica no ambiente digital. Essa banalização encontra respaldo nos mecanismos descritos pela Teoria Social Cognitiva de Albert Bandura, segundo a qual comportamentos agressivos tendem a ser reproduzidos quando recebem validação social, reconhecimento grupal ou ausência de consequências efetivas (BANDURA; AZZI; POLYDORO, 2008).

No ambiente digital, curtidas, compartilhamentos, comentários e crescimento de seguidores funcionam como reforçadores simbólicos extremamente poderosos. O sofrimento da vítima passa a coexistir com o entretenimento do público. Essa dessensibilização progressiva diante da dor alheia — já abordada anteriormente no artigo “O caso do cão Orelha e a normalização da violência como linguagem digital” (FERREIRA, 2026), contribui para reduzir barreiras emocionais e ampliar a tolerância social a conteúdos cada vez mais agressivos e degradantes, inclusive manifestações extremas de violência, como o zoossadismo. A violência deixa de causar estranhamento e passa a gerar engajamento.

Embora parte das referências utilizadas anteceda o período pandêmico, seus fundamentos permanecem extremamente atuais. A pandemia de COVID-19 não alterou a essência desses mecanismos de violência digital; ao contrário, ampliou sua intensidade. O aumento da hiperconectividade, da dependência social das redes e da exposição contínua ao ambiente digital potencializou fenômenos já descritos anteriormente pela literatura científica, como reforço grupal da agressividade, banalização da humilhação pública, impulsividade digital e erosão da empatia nas interações online. O que mudou não foi a essência do problema, mas sua escala, velocidade e capacidade de disseminação.

Essa dinâmica dialoga diretamente com reflexões já desenvolvidas anteriormente sobre a falsa sensação de anonimato e o rastro persistente da violência digital. Ainda que muitos administradores de perfis “@explana” acreditem estar protegidos pelo anonimato, o ambiente virtual não é um território sem rastros. Publicações, acessos, conexões e interações digitais podem ser objeto de preservação probatória e investigação técnica, especialmente quando há indícios de crimes contra a honra, perseguição, exposição vexatória ou divulgação indevida de conteúdos envolvendo adolescentes (FERREIRA, 2025) .

Além disso, o fenômeno evidencia uma fragilidade estrutural na educação digital contemporânea. A pesquisa publicada pela Revista Campo Minado destaca que escolas ainda demonstram dificuldade em lidar com conflitos que ultrapassam os limites físicos da sala de aula e se expandem para redes sociais marcadas pela instantaneidade e ausência de barreiras de disseminação (PINTO; RODRIGUES; RIBEIRO, 2024) . A violência já não permanece restrita ao recreio, ao corredor ou ao portão da escola; ela acompanha a vítima permanentemente por meio do celular.

Nesse contexto, o cyberbullying possui uma característica particularmente destrutiva: sua permanência difusa e potencialmente irreversível. Como sustento frequentemente em palestras e reflexões sobre violência digital, “o cyberbullying se assemelha a um travesseiro de penas lançado ao vento: mesmo que exista arrependimento posterior, torna-se impossível recolher completamente aquilo que já foi espalhado”. Uma vez publicado, compartilhado ou replicado, o conteúdo passa a escapar do controle original, ampliando o alcance da violência e prolongando seus efeitos emocionais, sociais e psicológicos sobre a vítima.

Embora os perfis “@explana” tenham se popularizado principalmente no Instagram, a dinâmica assume contornos ainda mais agressivos quando migra para plataformas como o X (antigo Twitter). Diferentemente do Instagram, cuja estrutura ainda mantém parte da interação vinculada a círculos escolares, perfis pessoais e exposição imagética localizada, o X opera sob uma lógica de viralização acelerada, impulsividade discursiva e amplificação massiva de conflitos. Nesse ambiente, acusações, boatos e ataques podem alcançar milhares de pessoas em questão de minutos, frequentemente descontextualizados e impulsionados por compartilhamentos sucessivos, comentários hostis e comportamentos de linchamento digital coletivo (MARWICK; BOYD, 2014).

A própria arquitetura da plataforma favorece essa escalada. O anonimato relativo, a velocidade de circulação das publicações e a cultura de engajamento baseada em confronto tornam o ambiente particularmente propício à propagação de campanhas difamatórias, exposição vexatória e ataques coordenados. Em muitos casos, a vítima deixa de sofrer violência apenas no âmbito escolar e passa a enfrentar humilhação pública em escala ampliada, acompanhada por desconhecidos que sequer possuem relação direta com o conflito original. A violência deixa de ser interpessoal e passa a assumir características de espetáculo coletivo digital. Estudos sobre assédio online e cultura de exposição digital já demonstravam que plataformas estruturadas em comunicação pública instantânea favorecem dinâmicas de “dogpiling”, cancelamento coletivo e perseguição digital coordenada (JANE, 2015).

Essa hiperconectividade altera profundamente a experiência do sofrimento. Jonathan Haidt alerta que adolescentes inseridos em ambientes digitais hiperestimulados apresentam maior vulnerabilidade à ansiedade, impulsividade, busca por validação social e fragilização emocional, especialmente em fases críticas do desenvolvimento psíquico (HAIDT, 2024). Michel Desmurget também demonstra que a exposição excessiva a dinâmicas digitais marcadas por estímulo contínuo e empobrecimento reflexivo impacta negativamente processos empáticos e regulatórios (DESMURGET, 2021).

Nesse cenário, os “@explana” operam como catalisadores de violência relacional. Não se trata apenas de perfis de fofoca. Trata-se de ambientes que instrumentalizam a exposição pública como mecanismo de poder, pertencimento e entretenimento coletivo.

A própria estrutura dessas páginas revela isso. Muitas incentivam denúncias anônimas, utilizam “caixinhas” de interação para coleta de boatos e estimulam disputas sociais internas entre estudantes, frequentemente explorando sexualidade, aparência física, relacionamentos e vulnerabilidades emocionais. Em diversos casos, adolescentes seguem essas páginas não apenas para participar, mas também por medo de se tornarem as próximas vítimas.

As consequências ultrapassam o ambiente virtual. Há impactos concretos na saúde mental, no rendimento escolar, no convívio social e na percepção de segurança emocional dentro das instituições de ensino. Algumas vítimas passam a evitar a escola, desenvolvem crises de ansiedade, isolamento social e sintomas depressivos. Em situações mais graves, a exposição digital contínua pode funcionar como gatilho para automutilação e ideação suicida, especialmente quando associada à ausência de suporte familiar e institucional.

O enfrentamento desse fenômeno exige respostas mais profundas do que simples remoção de perfis. Exige alfabetização digital crítica, fortalecimento da educação socioemocional, participação ativa das famílias, protocolos escolares claros e responsabilização adequada de condutas ilícitas. Também exige compreender que violência digital não deixa de ser violência apenas porque ocorre através de uma tela.

Como já sustentado anteriormente no artigo “Educar para o respeito: por que as escolas precisam das disciplinas de empatia e cidadania digital”, a empatia não pode ser tratada como competência automática; ela precisa ser ensinada, exercitada e protegida socialmente (FERREIRA, 2026) . Os “@explana” revelam justamente o estágio oposto desse processo: quando a exposição humilhante deixa de gerar reprovação coletiva e passa a ser consumida como espetáculo cotidiano.

O problema, portanto, não está apenas em quem cria esses perfis. Está também na cultura digital que aprende a rir da humilhação, compartilhar a dor alheia e transformar sofrimento em entretenimento algorítmico. E sociedades que normalizam pequenas crueldades cotidianas tendem, progressivamente, a reduzir sua capacidade de reconhecer violências maiores quando elas surgem.

 

Rodrigo Alessandro Ferreira | Bullying e Cyberbullying
Policial em Santa Catarina
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