Da Síndrome de Ulisses ao Banzo: Uma Reflexão | Por Dr. Jose Sion Cantos

Da Síndrome de Ulisses ao Banzo: Uma Reflexão | Por Dr. Jose Sion Cantos

Junho 5, 2026 Não Por Redação

 

Por Dr. Jose Sion Cantos

Nesta semana recebi uma edição nova do poema homérico “Odisseia”, participo de um clube do livro onde os editores elegem os títulos a ser enviados a cada mês. Não passava pela minha cabeça fazer essa releitura até porque há dezenas de outros títulos na lista de espera.

Sou do tempo em que os professores de literatura no colégio exigiam a leitura de mais de um livro por mês, os clássicos Ilíada e Odisseia não podiam faltar.

A Odisseia narra o retorno de Ulisses após ter vencido e conquistado Troia, é acometido por sintomas depressivos e ansiosos enquanto sua esposa Penélope o espera por mais de 20 anos.

Nesse retorno Ulisses passa por todo tipo de tormentos, chegando na sua querida Ítaca como um ancião debilitado, uma sombra do homem que era quando partiu para a guerra.

No ano 2000 o psiquiatra espanhol Joseba Achotegui descreveu uma série de sintomas que vivem os imigrantes que vivem situações extremamente difíceis no novo lugar de residência.

Todos os imigrantes passam por situações difíceis já que quase sempre existe uma sensação inicial de perda de todo seu entorno familiar, social, laboral e geográfico, entorno que sempre tem uma influência importante na formação psicossocial.

Nas últimas décadas Brasil tem dado acolhida a muitos imigrantes de países como Haiti, Venezuela, Bolívia e de países africanos que passam por conflitos bélicos e étnicos.

Os serviços de saúde têm recebido centenas desses imigrantes que vivem numa situação de estresse crônico provocado principalmente pelas incertezas em relação ao futuro e a nostalgia pela perda do que constituía sua vida anterior.

Há uma sensação de luto sem que tenha existido uma perda definitiva como é a morte de um parente.

O termo Síndrome de Ulisses parece ser uma designação moderna para aquilo que era chamado de “Banzo” no Brasil colonial para denominar um estado de melancolia profunda que acometia os africanos escravizados. Esse estado de apatia e profunda melancolia podia levar à morte.

O poeta Raimundo Correia descreve o sofrimento nos versos: “Vai com a sombra crescendo o vulto enorme do baobá…/ E cresce na alma o vulto de uma tristeza, imensa, imensamente….”

A diferença principal entre a síndrome e o Banzo está relacionado à situação de cativeiro, a captura violenta ainda na África, e ainda ficar submetido a tortura e castigos injustos.

Isto faz com que o Banzo possa ser considerada uma doença mental com causa muito bem definida, uma doença provocada pelos próprios humanos.

Já a Síndrome de Ulisses não é considerada um transtorno mental e sim um estado de estresse crônico e de luto que atinge o imigrante.

Devemos estar atentos para não catalogar imigrantes com estes sintomas de ansiedade, luto, melancolia, e alguns sintomas psicossomáticos como dores difusas, cefaleias, insônia, como sendo portadores de transtorno depressivo.

Além do histórico do paciente temos que considerar que esses imigrantes conservam a vontade e a força para tentar vencer as dificuldades encontradas no novo ambiente.

Eles não precisam medicamentos, eles precisam de apoio social e psicológico inicial, além de oportunidades de trabalho e ajuda para regularizar sua situação migratória.

Devido à grande diversidade cultural dos estados brasileiros também presenciamos sintomas de semelhantes em migrantes de outros estados.

A poetisa uruguaia Cristina Peri Rossi fez uma definição perfeita na sua poesia “A Viagem”: “Emigrar é sempre partir-se em dois”.

Acolher e ter empatia com os imigrantes é um dever moral de cada um de nós, a história da humanidade ensina que todos sem exceções temos antepassados que foram migrantes.

Dr. Jose Sion Cantos
Brusque, 05 de Junho de 2026